Os desafios enfrentados pelos moradores de Maceió diante do afundamento do solo
Introdução
Os passeios de Osmar da Silva com seu cachorro agora acontecem em meio ao que restou do que era a avenida Francisco de Menezes, em Maceió. Ele mora perto de um dos pontos de bloqueio da Braskem que foram instalados após o início do afundamento da região, ainda em 2018. O motoboy e os vizinhos estão preocupados.
O que aconteceu
A Defesa Civil de Maceió informou, no fim da manhã de hoje (1º), que a área ao redor da mina 18 da Braskem está afundando em uma velocidade de 2,6 cm por hora.
Em nota, o órgão afirmou estar em "alerta máximo". O deslocamento vertical acumulado na área da mina é de 1,42 m. A recomendação da Defesa Civil é que a população não transite na área desocupada. O órgão destacou que medidas de controle e monitoramento são aplicadas para reduzir o perigo.
Desde quarta (29), 23 residências que ficam na região mais próxima do Mutange foram desocupadas. Na quinta (30) um novo aviso foi emitido sobre a possibilidade de colapso às 6h de hoje ? mas, até o início da tarde, nada aconteceu. O "pior cenário" para um colapso projetado pelo órgão mostra uma cratera de 152 metros de raio.
A Lagoa Mundaú deve ser atingida, de acordo com a Defesa Civil ? porém nenhum efeito ecológico imediato será sentido se isso ocorrer e a área está isolada.
Depoimentos dos moradores
Osmar da Silva trabalha de motoboy desde 2018 ? coincidentemente, quando iniciaram os tremores que levaram à evacuação de cinco bairros de Maceió. Ele acompanhou como morador e trabalhador que precisa usar a rota diariamente.
"Quando começaram essas coisas, o pessoal não acreditava muito e não se importava de passar por dentro dos bairros abandonados", diz o motoboy. "Agora, quando pego passageiro, tem alguns que pedem para não passar por aqui com medo de que aconteça algo."
A aposentada Marize de Souza mora mais longe da mina ? mas também está alerta. Ela vive no bairro do Vergel do Lago, do outro lado da lagoa que margeia o bairro do Mutange. Desde que começaram os avisos, ainda no começo da semana, está sendo complicado pregar o olho em casa. À noite, a gente tenta dar uns cochilos, mas não dura muito, parece até que a qualquer momento pode começar a desabar tudo.
"Eu vi na TV e também no celular que esse lado aqui da lagoa não será prejudicado pelo que pode acontecer lá no Mutange, mas mesmo assim a gente fica apreensiva", relata Marize de Souza.
O processo de exploração das minas da Braskem
O sistema usado pela Braskem para explorar a mina é feito por um poço cavado, que injeta água para a camada de sal, gerando assim a salmoura. A solução então vai ser retirada dessas minas para a superfície ? depois, elas são preenchidas com material líquido para dar estabilidade no solo. Em Maceió, esse processo durou de 1979 a 2019.
Entretanto, parte dessas minas teve vazamento do líquido ao longo desses mais de 40 anos de exploração ? o que causou instabilidade no solo, gerando buracos como essa cavidade da mina 18. Ao todo são 35 minas na área urbana, que estão sendo preenchidas novamente.
Esse processo levou ao afundamento de solo em cinco bairros e ao deslocamento de quase 60 mil pessoas ao longo dos últimos cinco anos. Ontem, a área de risco foi ampliada por determinação judicial, incluindo 1.700 lotes que agora exigem a retirada dos moradores. Cada lote abriga, no mínimo, uma residência.
A Braskem informou que "acompanha de forma ininterrupta os dados de monitoramento, que são compartilhados em tempo real com a Defesa Civil Municipal".
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