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As Aves Migratórias e o Comportamento de Fidelidade de Sítio Reprodutivo

Ontem fui dormir escutando um dueto de urutaus. Da janela do meu quarto, aqui na Serra da Bocaina em Cunha (SP), tenho uma visão panorâmica dos fundos do Vale do Mato Escuro com suas florestas, pastagens e brejos. Quase toda noite, antes de dormir, apoio os cotovelos na janela e fico em silêncio, escutando quais dos meus "avizinhos" estão em casa.

Ontem, assim que encostei na janela, um urutau cantou não muito distante, três segundos depois que outro respondeu mais pro fundo do vale. E ficaram nesse papo, um de cá, outro de lá. Alguns minutos depois, cai na cama, mas fiz questão de dormir de janela aberta para ter o privilégio de ser embalado por essa canção de ninar feita em dupla.

Poucas semanas atrás, eu escutava da minha janela o bacurau, o bacurau-tesoura e a corujinha-do-mato, mas nada do urutau. Aqui, na casa de shows do Vale do Mato Escuro, o urutau chega para se apresentar apenas no Festival da Primavera. Mas ele não é o único artista no "line up" desse evento.

Além do urutau, as participações especiais desse festival incluem, em sua programação noturna, tuju e joão-corta-pau. Já de dia, o palco é dividido entre tesourinha, suiriri, irré, peitica, bem-te-vi-rajado, tuque, tique-pium e outras espécies migratórias que só se fazem ouvir aqui no Vale do Mato Escuro entre o finalzinho do inverno e o começo do outono.

A Migração das Aves

Sabemos pouco sobre a migração da maioria dessas espécies. No caso do urutau, não sabíamos nem que ele era uma ave migratória até bem recentemente, quando através de um estudo científico junto com um time de outros pesquisadores mostramos a partir de dados da plataforma WikiAves que, com a chegada do outono, a espécie desaparece do Sul e áreas mais frias do Sudeste do Brasil. Já no Norte e Nordeste a espécie parece não migrar.

Ainda é um completo mistério onde o urutau, e muitas dessas espécies migratórias, vão se apresentar após sua temporada de shows na primavera e verão, aqui no Vale do Mato Escuro. Mas seu destino após ficarem sumidas boa parte do outono e do inverno é conhecido, muitas delas voltam. Retornam para o mesmíssimo lugar onde se reproduziram na estação passada.

É isso mesmo. O urutau que canta aqui na minha janela se reproduz por aqui na primavera e verão e depois migra para algum lugar ainda desconhecido, mas que certamente está a milhares de quilômetros do meu quintal.

Fidelidade de Sítio Reprodutivo

Não só o urutau, mas muitas aves e outros animais migratórios exibem um comportamento chamado pelos biólogos de "fidelidade de sítio reprodutivo". O termo parece complexo, mas literalmente refere-se a tendência exibida por muitas espécies de reproduzirem nos mesmos locais, em diferentes estações reprodutivas.

Evolutivamente, há uma série de vantagens para espécies migratórias retornarem para o mesmo local onde estiveram em períodos anteriores. Isso permite o acumulo de conhecimento sobre um determinado local, incluindo informações sobre onde encontrar comida, água, além de eventuais competidores e predadores. Essa explicação pode ser resumida na batida frase "em time que está ganhando não se mexe".

Falando em resumir conceitos científicos de forma popular e voltando aos cantores da minha janela... Sempre que escuto a famosa música "As Andorinhas", do grupo sertanejo Trio Parada Dura, a primeira coisa que me vem a cabeça é o comportamento de fidelidade de sítio reprodutivo em aves migratórias.

As andorinhas e o personagem da música não voltam para um ninho qualquer, mas para o "velho ninho", como diz a estrofe abaixo.

"As andorinhas voltaram
E eu também voltei
Pousar no velho ninho
Que um dia aqui deixei"

Não é por acaso que, especialmente no início da primavera, quando encontro uma ave migratória aqui no meu quintal que acabou de chegar de uma longa viagem, eu faço questão de cumprimentá-la em voz alta "bem-vinda de volta". Como se já a conhecesse de outras temporadas, pois é bem possível que já tenhamos nos cruzado antes. Educação vem de berço, mas também de ninho.

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